quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um Ser Amor - Paula Fernandes

http://youtu.be/8IDfbI8vmuI

Corpo ausente

Mistério, esse, o da vida...
Aquele que morre nos ponteiros do tempo
Das almas guardadas num oceano sem fundo
Porque os corpos já não comandam
Os dias que passam, inúteis...

Guardei no bolso o sonho
Porque nos olhos já não cabia!
Era grande demais, e os olhos são pequenos...
O bolso, é fundo e escuro
Acomoda a eternidade do que é utópico.

Tomo café, ainda assim, todas as manhãs
Com os raios de sol que cabem nas palmas das minhas mãos
E vêm plantar esperança na seiva que corre em mim.

E na sombra da minha silhueta
Planto o silêncio que o vento afaga
Trémulas, as minhas mãos? Não!
Fazem parte do meu corpo ausente
Que adormeceu, há muito, nos braços da terra.


CECÍLIA VILAS BOAS, in O ECO DO SILÊNCIO (Esfera do Caos, 2012)

O Grito do Mar ou Tempos de Raiva

Não há entardeceres que sejam só o desmaiar de cores e o último grito de fogo do Sol.
Não há esperanças despidas do sangue das almas de pouca força. Tudo se mistura.
Os anseios de uns provocam a queda de corpos vivos de outros.
As bandeiras içadas têm braços de mortos a erguê-las ainda.
E há os cegos. Os que passam por tudo isto sem o ver porque ainda lhes sobra uma centelha do conforto de Ter.
Não há sobretudo Silêncio.
Tudo grita.
O Mar grita por gente afoita que um dia conheceu e se afundou em espuma de memórias.
Gritam os esfomeados já sem voz com o som a sair-lhes dos olhos vidrados.
Grita o espírito dos heróis por lhes terem vendido as lutas fatais que um dia venceram. Para todos.
Não há Silêncio.
Mas há os silêncios vis. E esses são muitos. Silêncios que se alimentam da concordância dos cobardes . Da conivência dos que ainda acreditam ter algo a ganhar.
Não haverá vencedores na Guerra da Fome a menos que uns comam os outros no final. Mesmo assim não é uma vitória. Será a última saída.
Ergo o meu braço num aceno ao Futuro que nunca verei e em que pouco acredito.
Mas ergo-o como quem hasteia uma bandeira toda negra com letras brancas a dizer apenas – EXISTO .


Lisboa, 13-08-2013
Madalena Pestana