Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.
PEDRO TAMEN, in TÁBUA DAS MATÉRIAS - POESIA 1956-1991 (Tertúlia, 1991)
domingo, 3 de novembro de 2013
Paixão
Podia escrever o teu nome num vidro embaciado ou
segredá-lo a uma borboleta negra.
Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.
Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação.
JORGE DE SOUSA BRAGA, in O POETA NU (Lisboa, Fenda Ed., 1999)
segredá-lo a uma borboleta negra.
Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.
Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação.
JORGE DE SOUSA BRAGA, in O POETA NU (Lisboa, Fenda Ed., 1999)
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