Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'
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terça-feira, 21 de janeiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
O beijo
Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
JORGE DE SENA, in ANTOLOGIA POÉTICA (Asa, 1999)
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
JORGE DE SENA, in ANTOLOGIA POÉTICA (Asa, 1999)
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Poema XLVIII
Deitei-me na tua cama
com as mãos cheias de nada.
Deitei-me na tua cama
sem saber da madrugada.
Deitei-me na tua cama
com minha pele tatuada
pelo silêncio das pedras
em água desesperada.
Senti perfumes, palácios,
palmas, promessas, países,
portos, poentes, palavras
nas minhas mãos infelizes.
Em momentos, em minutos,
cruzei mares, vi marés
e a mágoa maior de todas
de não saber quem tu és.
Deitei-me na tua cama
para beijar os teus pés.
Deitei-me na tua pele
como se fosse o cetim
dos lençóis do meu desejo
da fome de ter-te assim
e mergulhar no teu corpo
sempre à procura de mim.
E vi os braços dos pobres
erguendo luzes e chamas,
brilhos tirados do sol
que encheram todas as camas.
Senti os braços da noite
poisarem sobre os meus braços
quando tudo me pediste:
beijos, silêncios, cansaços.
Quando tudo tinha um nome
feito com fios de nada
eu dormi na tua cama
sem saber da madrugada,
fiz amor na tua cama
com minha pele tatuada
pelo silêncio das pedras
em água desesperada.
JOAQUIM PESSOA, in O POUCO É PARA ONTEM (Litexa, 2008)
com as mãos cheias de nada.
Deitei-me na tua cama
sem saber da madrugada.
Deitei-me na tua cama
com minha pele tatuada
pelo silêncio das pedras
em água desesperada.
Senti perfumes, palácios,
palmas, promessas, países,
portos, poentes, palavras
nas minhas mãos infelizes.
Em momentos, em minutos,
cruzei mares, vi marés
e a mágoa maior de todas
de não saber quem tu és.
Deitei-me na tua cama
para beijar os teus pés.
Deitei-me na tua pele
como se fosse o cetim
dos lençóis do meu desejo
da fome de ter-te assim
e mergulhar no teu corpo
sempre à procura de mim.
E vi os braços dos pobres
erguendo luzes e chamas,
brilhos tirados do sol
que encheram todas as camas.
Senti os braços da noite
poisarem sobre os meus braços
quando tudo me pediste:
beijos, silêncios, cansaços.
Quando tudo tinha um nome
feito com fios de nada
eu dormi na tua cama
sem saber da madrugada,
fiz amor na tua cama
com minha pele tatuada
pelo silêncio das pedras
em água desesperada.
JOAQUIM PESSOA, in O POUCO É PARA ONTEM (Litexa, 2008)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, in ANTOLOGIA POÉTICA, (12ª ed., J. Olympio, 1978)
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, in ANTOLOGIA POÉTICA, (12ª ed., J. Olympio, 1978)
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Livro Aberto
Quero que tenhas muitas páginas
E versos difíceis de entender
Quero que me digas onde vais
E que nada fique por dizer...
Sei que não há lugares eternos.
Esta cadeira tem horas,
Há ficar e partir...
Há um entardecer
Para os vagares e demoras.
Até pode chover...
Abre e diz-me a teu jeito
Essa página, e outra, e outra,
Mas não, não me toques ainda.
Assim aberto
Fica
Perto
Mas não me toques ainda.
Deixa-me ler até ao fim.
Com os olhos, com o peito
Antes que o vento
Vire a página da decisão.
Quero ser eu
A tocar essas páginas
Que vou ler e anotar.
Mas por agora, quero ler-te
Só ler-te.
Quero amar-te devagar.
CARLOS CAMPOS, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler, 2012)
E versos difíceis de entender
Quero que me digas onde vais
E que nada fique por dizer...
Sei que não há lugares eternos.
Esta cadeira tem horas,
Há ficar e partir...
Há um entardecer
Para os vagares e demoras.
Até pode chover...
Abre e diz-me a teu jeito
Essa página, e outra, e outra,
Mas não, não me toques ainda.
Assim aberto
Fica
Perto
Mas não me toques ainda.
Deixa-me ler até ao fim.
Com os olhos, com o peito
Antes que o vento
Vire a página da decisão.
Quero ser eu
A tocar essas páginas
Que vou ler e anotar.
Mas por agora, quero ler-te
Só ler-te.
Quero amar-te devagar.
CARLOS CAMPOS, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler, 2012)
Fica
O que te assusta afinal? O susto? Ou o final?
Estamos aqui e agora. P'ra mim basta.
Basta-me saber-nos aqui e agora: querer - querer muito.
Quero-te.
Toco-te. Não. Não basta. Tenho de te ter: aqui e agora.
De me ser. Sem demora.
No vazio de ti - cheio de mim. Farto. Repleta em ti - completo em mim.
Perto.
Início, meio e fim. Momento.
É isto que sou. Não me vou. Fico.
Fica, enquanto podes. Fica. Fica.
O tempo assim o dita.
E, na verdade, só o tempo fica.
CONCEIÇÃO SOUSA, in PONTAS SOLTAS: NÓS (edição de autora, Julho 2011)
Estamos aqui e agora. P'ra mim basta.
Basta-me saber-nos aqui e agora: querer - querer muito.
Quero-te.
Toco-te. Não. Não basta. Tenho de te ter: aqui e agora.
De me ser. Sem demora.
No vazio de ti - cheio de mim. Farto. Repleta em ti - completo em mim.
Perto.
Início, meio e fim. Momento.
É isto que sou. Não me vou. Fico.
Fica, enquanto podes. Fica. Fica.
O tempo assim o dita.
E, na verdade, só o tempo fica.
CONCEIÇÃO SOUSA, in PONTAS SOLTAS: NÓS (edição de autora, Julho 2011)
Esboço
Desenho o esboço
do teu corpo
no meu modo imaginário
de ser,
doce
redondo
dado.
São traços da minha forma
de te querer,
detalhes
que as nossas cartas jogam
E do que sabes
E do que sei,
são as coisas que trocamos.
os traços seguem as linhas,
pecados desta linha
que nos separa,
nos torna virtuais.
E quando me pedes
que me dê de ti
é para mim que voltas
nesse amor frágil,
inconsolável
de te ter longe
aqui mesmo ao pé de mim.
JORGE BICHO, in POR DENTRO DAS PALAVRAS (Lua de Marfim, 2011)
do teu corpo
no meu modo imaginário
de ser,
doce
redondo
dado.
São traços da minha forma
de te querer,
detalhes
que as nossas cartas jogam
E do que sabes
E do que sei,
são as coisas que trocamos.
os traços seguem as linhas,
pecados desta linha
que nos separa,
nos torna virtuais.
E quando me pedes
que me dê de ti
é para mim que voltas
nesse amor frágil,
inconsolável
de te ter longe
aqui mesmo ao pé de mim.
JORGE BICHO, in POR DENTRO DAS PALAVRAS (Lua de Marfim, 2011)
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Escrevo-te a sentir tudo isto
escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
AL BERTO, in O MEDO (1987)
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade
habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
AL BERTO, in O MEDO (1987)
domingo, 8 de dezembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Beijos
Há beijos que por si sós pronunciam
a sentença de amor condenatória,
há beijos que se dão com o olhar
há beijos que se dão com a memória.
Há beijos silenciosos, beijos nobres
há beijos enigmáticos, sentidos
há beijos que só são dados pelas almas
há beijos verdadeiros, porque proibidos.
Há beijos que calcinam e que ferem,
há beijos que arrebatam os sentidos,
há beijos misteriosos que sugerem
mil sonhos errantes e perdidos.
Há beijos problemáticos que escondem
um segredo que nunca decifraram,
há beijos que engendram a tragédia
de quantos botões de rosa desfolharam.
Há beijos perfumados, beijos tíbios
que palpitam nos íntimos desvelos,
há beijos que nos lábios deixam pegadas
como um campo de sol entre dois gelos.
Há beijos que parecem açucenas
de tão sublimes, ingénuos, de tão puros,
há beijos de traição e cobardia,
há beijos malditos e perjuros.
Judas beija Jesus e deixa impressa
em seu rosto divino a felonia,
enquanto Madalena com seus beijos
deixa força e piedade na agonia.
Desde então nos beijos centelham
o amor, a traição e as dores,
e nas bodas humanas se assemelham
à brisa que passa pelas flores.
Há beijos que provocam desvario
de amorosa paixão ardente e louca,
bem os conheces, são os beijos a fio
que eu inventei para a tua boca.
Beijos de chama que em rasto impresso
sulcos de um amor vedado levaram,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só os nossos lábios provaram.
Recordas o primeiro? Indefinível;
cobriu o teu rosto até corar
e nos espasmos de emoção terrível,
encheu-se de lágrimas o teu olhar.
Recordas-te de uma tarde, do louco instante
em que te vi com zelo e pensamentos sábios,
te abracei… o beijo vibrante,
e que viste depois? Sangue nos meus lábios.
Ensinei-te a beijar: os frios beijos
são de impassível coração de roca,
eu ensinei-te a beijar com os beijos
que eu inventei para a tua boca
GABRIELA MISTRAL, in DESOLACIÓN (1922), tradução de CARLOS CAMPOS
a sentença de amor condenatória,
há beijos que se dão com o olhar
há beijos que se dão com a memória.
Há beijos silenciosos, beijos nobres
há beijos enigmáticos, sentidos
há beijos que só são dados pelas almas
há beijos verdadeiros, porque proibidos.
Há beijos que calcinam e que ferem,
há beijos que arrebatam os sentidos,
há beijos misteriosos que sugerem
mil sonhos errantes e perdidos.
Há beijos problemáticos que escondem
um segredo que nunca decifraram,
há beijos que engendram a tragédia
de quantos botões de rosa desfolharam.
Há beijos perfumados, beijos tíbios
que palpitam nos íntimos desvelos,
há beijos que nos lábios deixam pegadas
como um campo de sol entre dois gelos.
Há beijos que parecem açucenas
de tão sublimes, ingénuos, de tão puros,
há beijos de traição e cobardia,
há beijos malditos e perjuros.
Judas beija Jesus e deixa impressa
em seu rosto divino a felonia,
enquanto Madalena com seus beijos
deixa força e piedade na agonia.
Desde então nos beijos centelham
o amor, a traição e as dores,
e nas bodas humanas se assemelham
à brisa que passa pelas flores.
Há beijos que provocam desvario
de amorosa paixão ardente e louca,
bem os conheces, são os beijos a fio
que eu inventei para a tua boca.
Beijos de chama que em rasto impresso
sulcos de um amor vedado levaram,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só os nossos lábios provaram.
Recordas o primeiro? Indefinível;
cobriu o teu rosto até corar
e nos espasmos de emoção terrível,
encheu-se de lágrimas o teu olhar.
Recordas-te de uma tarde, do louco instante
em que te vi com zelo e pensamentos sábios,
te abracei… o beijo vibrante,
e que viste depois? Sangue nos meus lábios.
Ensinei-te a beijar: os frios beijos
são de impassível coração de roca,
eu ensinei-te a beijar com os beijos
que eu inventei para a tua boca
GABRIELA MISTRAL, in DESOLACIÓN (1922), tradução de CARLOS CAMPOS
domingo, 10 de novembro de 2013
Grita
AMOR, quando chegares na fonte distante,
cuida para não me morder com voz de sonho:
para que a minha dor não morra nas tuas asas,
que na garganta de ouro a minha voz não se afogue.
Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
sê turbilhão que assola,
sê rompante que crava.
Amor, desfaz o ritmo
da minha água tranquila:
saibas tu ser a dor que retine e que sofre,
saibas tu ser a angústia que retorce e grita.
Não seja eu esquecido
não me dês a ilusão.
Porque todas as folhas que caíram na terra
Foram tingindo de ouro meu coração.
Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
desvia minhas vertentes,
crispa as minhas entranhas.
E assim uma tarde – Amor que tens as mãos cruéis –,
ajoelharei ante ti e te darei graças.
- Pablo Neruda, in: Crepusculário - tradução de José Eduardo Degrazia
cuida para não me morder com voz de sonho:
para que a minha dor não morra nas tuas asas,
que na garganta de ouro a minha voz não se afogue.
Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
sê turbilhão que assola,
sê rompante que crava.
Amor, desfaz o ritmo
da minha água tranquila:
saibas tu ser a dor que retine e que sofre,
saibas tu ser a angústia que retorce e grita.
Não seja eu esquecido
não me dês a ilusão.
Porque todas as folhas que caíram na terra
Foram tingindo de ouro meu coração.
Amor – quando chegares
na fonte mais distante,
desvia minhas vertentes,
crispa as minhas entranhas.
E assim uma tarde – Amor que tens as mãos cruéis –,
ajoelharei ante ti e te darei graças.
- Pablo Neruda, in: Crepusculário - tradução de José Eduardo Degrazia
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
O ruído da mentira
Nos teus olhos vejo
O ruído da mentira
Minimizando o valor real
Da verdade
Para que possas dormir
Com alguma tranquilidade.
Pintas de claro cinzento
A escuridão dos actos
Para te convenceres
(porque já não convences ninguém)
Que o que foi escrito
Não era para ofenderes.
Defendes a maldade
(Na vergonha perdida)
Na tentativa de camuflar
A importância da história
Que viveste e de que não queres
Memória.
Fuga na imagem distorcida
Duma realidade não suportada
Pelos teus mais profundos valores
Resultando numa desgastada
Cobardia sem arrependimento
De vítima mascarada.
Maria Sousa
O ruído da mentira
Minimizando o valor real
Da verdade
Para que possas dormir
Com alguma tranquilidade.
Pintas de claro cinzento
A escuridão dos actos
Para te convenceres
(porque já não convences ninguém)
Que o que foi escrito
Não era para ofenderes.
Defendes a maldade
(Na vergonha perdida)
Na tentativa de camuflar
A importância da história
Que viveste e de que não queres
Memória.
Fuga na imagem distorcida
Duma realidade não suportada
Pelos teus mais profundos valores
Resultando numa desgastada
Cobardia sem arrependimento
De vítima mascarada.
Maria Sousa
domingo, 3 de novembro de 2013
Quási
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...
Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...
Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...
Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'
Vaidade, tudo vaidade!
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.
Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...
Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!
Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?
António Nobre, in 'Só'
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.
Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...
Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!
Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?
António Nobre, in 'Só'
Poema para ingrata
Tu, menosprezas
Quem te presa
Maltratas
Quem te trata,
Ignoras
Quem te prioriza
Tem corizas
De poesia,
Bates
Em que te afaga,
Calas
Teus amantes,
Beijas
Militantes
De uma guerra
Da terra mãe
Perdida...
Quem de nós
Está errado
A mim,
Por te desejar,
Você,
Por me desertar?
Tu, um dia
Quem diria
Quem dirá,
Que vai sofrer
E vai chorar
Amargamente
Francamente...
Não é maltrato,
Tampouco fracasso
Nem maldição
É a justiça
De própria mão.
Mão do passado
Que nunca ouviste
Mão do presente
Que bem viste
Anunciar
Ao futuro cego
Que preparaste
Por que paraste
E não sentiste...
Diego Duarte
Quem te presa
Maltratas
Quem te trata,
Ignoras
Quem te prioriza
Tem corizas
De poesia,
Bates
Em que te afaga,
Calas
Teus amantes,
Beijas
Militantes
De uma guerra
Da terra mãe
Perdida...
Quem de nós
Está errado
A mim,
Por te desejar,
Você,
Por me desertar?
Tu, um dia
Quem diria
Quem dirá,
Que vai sofrer
E vai chorar
Amargamente
Francamente...
Não é maltrato,
Tampouco fracasso
Nem maldição
É a justiça
De própria mão.
Mão do passado
Que nunca ouviste
Mão do presente
Que bem viste
Anunciar
Ao futuro cego
Que preparaste
Por que paraste
E não sentiste...
Diego Duarte
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