amo-te quando anoitece
e as estrelícias reluzem
uma última vez aos raios de sol
as gaivotas indecisam-se
entre terra, doca e algum convés preguiçoso de mangueira,
só.
amo-te enquanto a noite desce
ou vem ou entra
porque nunca saberemos ao certo
se é a noite que baixa até nós
ou se somos nós alçados pela lua
para permitir os trabalhos esmerados
da mais árdua poesia das matérias, da voz mais sábia e mais silenciosa,
só.
amo-te ao ritmo da maré vaza
sem ansiedades nem licitações ou metas
vogando entre o oceano e o areal
impunemente líquida e dançarina
sulcando cada músculo teu
com doces espumas doces línguas
saboreando a teus seixos lisos
teus pequenos rochedos enigmáticos
e a toda a pedra que faz de teu corpo
farol mastro homem,
só.
amo-te, maré a incitar o areal
em idas-e-vindas incansáveis
por sabermos da eternidade dos sabores
agri-doces, ora em flor, ora em grânulo, ora em pó, sabor de sal,
só.
amo-te, sempre de novo. só.
maria toscano ©
Comboio Regional Aveiro-Coimbra-B, 17 Agosto/2013.
domingo, 18 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Quatro Cântaros - Mataji - As Mães Sagradas
http://youtu.be/_UEUQZsaDZ4
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Inventário
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
-
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
-
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
-
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
JOSÉ SARAMAGO, in OS POEMAS POSSÍVEIS ( Editorial Caminho, 6ª ed., 1997)
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
-
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
-
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
-
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
JOSÉ SARAMAGO, in OS POEMAS POSSÍVEIS ( Editorial Caminho, 6ª ed., 1997)
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