sábado, 11 de maio de 2013

Os silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor
Silêncios de silex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor
O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.


MARIA TERESA HORTA, in VOZES E OLHARES NO FEMININO (Ed, Afrontamento, Porto, 2001)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Magia enfeitiçada

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Sou magia
Sou feitiço
Alma aprisionada
Corpo de deleite
Eternamente apaixonada
Sou cristal
Sou pérola
Sou enfeite
Sou verso silenciado
Sou magia enfeitiçada
Tenho no peito um cadeado
Sou um silêncio magoado
Sou quem sente calada
Sou esquiço
Sou tela
Sou produto final
Sou esta, sou aquela
Sou paixão, sou amor,
Sou musa inspiradora
Sou coisa e tal
Sou diferente
Sou eterna seguidora
Corpo adormecido e dolente
Apaixonado sempre
Sou eterna sonhadora
E sonho e espero
E aguardo pelo fim
E sonhando desespero
Neste leito de carmim
Sou solidão descendo enfim
Sou paixão e sou desejo
Sou vestido de cetim
Sou carinho, sou ensejo
Numa paixão desenfreada
Sou magia enfeitiçada
Sou musa…e não sou nada...


SÃO REIS, in PALAVRAS NOSSAS - COLECTÂNEA DE NOVOS POETAS PORTUGUESES (Esfera do Caos, 2011)

domingo, 5 de maio de 2013

Condenado

http://youtu.be/kcWJ9TQ0P-0

Amarrotamos o pano-cru
que reveste o nosso leito
e deixo que o meu peito nu
vista a nudez do teu peito.

E fica a minha pele
colada na tua pele,
em bagas de lume, a transpirar,
até sentir, sem queixume, o teu corpo
apaixonar-se pelo meu corpo,
devagar, bem devagar…

E sinto o meu corpo tremer
ao sentir-te estremecer por dentro
e mil aves abrem asas ao vento
no sereno reflexo de um amanhecer.

E a tua pele…
E a minha pele…
A nossa pele…

Embalo em ti levado pelas marés
descobrindo quem és por dentro
inebriado num arrepio lento
que me percorre de lés a lés.

Queria deter este instante,
deixar cada segundo em suspenso
como o mundo que lá fora nos rodeia,
e ficar exilado em ti, condenado,
despudoradamente nu e apaixonado,
tendo o teu corpo por cadeia.


JOÃO MORGADO , in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS (Coisas de Ler, 2012)